Cinema e Psicanálise – Filmes podem nos ajudar a crescer

Este blog nasceu para que possamos aprender e crescer com a vida que acontece nas telas e nos movimenta intensamente enquanto estamos parados fisicamente

Só há uma maneira de crescer, ampliar a mente e expandir espaço emocional para nos tornarmos pessoas mais evoluídas – Experienciando, vivendo e sentindo tudo isto de foma consciente.

Para tanto, não precisamos passar concretamente por inumeras experiencias da vida, um filme pode ser fonte de expansão mental e emocional, se pudermos absorver suas mensagens e as experiências que o cinema nos convida.

Enquanto assistimos um filme ficamos fisicamente, externamente imóveis na medida que internamente nossa mente e emoção está em movimento intenso onde nos tornamos os personagens, vivemos suas ansiedades, seus sofrimentos, suas alegrias, angustias, felicidades e sonhos.

Só há um meio de crescer: Vivendo, experienciando, sentindo e aprendendo desta experiencia. Assim, este blog nasce para iluminar e ampliar as possibilidades de nos enriquecermos e sermos inspirados pelo cinema, tornando esta arte muito mais que entretenimento, mas uma maneira de enchergarmos a nós mesmos e evoluirmos por meio dessas histórias de vida.

Léa Michaan – Psicanalista e escritora, para acessar meu blog com artigos  sobre psicanálise do cotidiano:

http://psicologaresponde.wordpress.com/

Yentl – Um tributo às situações da vida em que não nos sentimos inseridos no contexto que nos é imputado.

Todos nós podemos nos identificar com Yentl, porque em inúmeras situações da vida não nos inserimos no contexto que nos é imposto, não nos identificamos com aquilo que esperam de nós, seja a sociedade, a comunidade, a família, os amigos, o senso comum e até cada um de nós na relação a gente mesmo.
Sentimo-nos como a Yentl no início do filme observando as pessoas falar sobre o peixe, as compras do mercado, a cozinha, a costura e ficamos como um peixe fora da água, com a sensação que somos únicos e solitários neste mundo e que não pertencemos ao cenário. A sensação de não pertencimento acontece a todos nós e nestas ocasiões temos duas opções: 1- podemos ficar estancados neste lugar e com esta desconfortável sensação, ou, 2- procurar o nosso ambiente e batalhar para conquistar algum espaço num lugar que nos diz respeito, onde nos sentimos inseridos.
Yentl é apaixonada pelo estudo da Torá, sua paixão parece ser sua vocação – nossa vocação é aquilo que nos invoca, nos chama a partir de dentro de nós mesmos. Podemos compreender a paixão e o encantamento de Yentl pelos estudos judaicos porque além de ser sua vocação, também lhe era proibido, e tudo que é proibido é mais tentador. Por quê? Todos nós temos o impulso de transgredir. Afinal, para sermos criativos necessitamos conhecer e romper a rotina. Quando um bebê nasce ele rompe com o estado atmosférico do ambiente em que está inserido. O mesmo acontece com a gente, não basta nascer, precisamos ser. O ato de nascermos psiquicamente, emocionalmente e humanamente equivale ao gesto de colocar nossa impressão digital no mundo, marcar o mundo com a nossa presença, com nossas ideias e nossas ações.
Todo o ser humano é dotado de dois impulsos primordiais: o impulso de preservação da espécie e o impulso epistemofílico (do conhecimento). Yentl estava bem mais identificada com o epistemofílico do que a preservação. Para ela estudar Torá significava preservar, porque  no caso dela havia um irmão que morreu criança, parece que Yentl desde menina procura compensar o pai e a família por esta falta, e isto também a conduz aos estudos reservados apenas aos homens. Yentl deseja ser o filho homem que foi ceifado precocemente da família, o  único que poderia manter a tradição dos estudos da Torá na família.
Então ela corta os cabelos, cortar os cabelos é um escalpo, assim como alguns animais trocam a pele, as borboletas saem do casulo e criam asas, para nós humanos representa renunciar e renascer. O cabelo também é associado à força vital e ao próprio destino. Quando uma pessoa quer mudar seu jeito de ser e seu destino, uma das primeiras coisas que ela faz é mudar o corte do cabelo.
Na cena que Yentl está fugindo de seu povoado para ingressar em alguma yeshivá, ela canta uma música em homenagem ao pai. Fala de saudade e da necessidade de um beijo de boa noite. Todo o ser humano só consegue dormir embalado simbolicamente nos braços de alguém. Sentindo-se acolhido, aprovado e aceito. então encontramos quietudo para dormir.
Apesar de se vestir com homem, Yentl permanece uma mulher porque se apaixona por Avigdor, mas sua vocação fala mais alto e ela renuncia a ele para conquistar mais espaço em seu proposito no mundo.
No final ela parte para outro lugar, segundo suas palavras, um lugar em que ela não precisará mais se contentar com uma parte do céu, mas poderá ter o céu inteiro para si. Ou seja, ser ela mesma numa atmosfera e num ambiente que a aceite, a acolha, a absorva, onde ela se sentirá parte.
A cena em que ela está no navio entre a imensidão do céu e do mar, simboliza a sua passagem para conquistar espaços e realizar sua vocação. Análogo à passagem do povo de Israel pelo mar. Se não temos a coragem de atravessar o oceano, ficaremos escravizados num lugar em que não pertencemos, ou então, assim como na história da saída do Egito, podemos morrer afogados, sufocados ao sermos obrigados a nos relacionar com o que nos intoxica. Morremos simbolicamente para a nossa vocação e para a oportunidade de sermos nós mesmos.

O Patinho Feio

Este é um dos filmes mais sensíveis que toca a grande maioria das pessoas porque o enredo põe o dedo bem no centro da nossa ferida originária que nunca cicatriza totalmente: nossa solidão e orfandade.
Todos nós já fomos e somos patinhos feios em determinada situação da vida. Todos nós somos em alguma medida órfãos , assim como também já fomos rejeitados, excluídos, abandonados, e tememos que estas dolorosas experiências se repitam. Todos nós já entregamos nosso carinho, nosso amor, e as coisas boas que tínhamos para alguém, nos disponibilizando para o outro na expectativa do retorno afetivo e fomos golpeados pela rigidez daquele que apenas enxergava em nós utilidade funcional. Assim demos alma e recebemos o golpe frio da materialidade do outro. Nós éramos humanos para aquele que se tornara frio e duro para nós transformando a si mesmo no objeto funcional e material que via em nós. Porque o ser humano oferece facetas de sua condição aos elementos do mundo. Dito de outro modo, nós somos para o outro aquilo que  o consideramos para nós.
Por isso, quando nos sentimos pertencentes a algum grupo, muitas vezes, excluímos alguém. Este gesto é uma forma de comunicar ao outro humano sobre a dor da exclusão. Uma comunicação silenciosa e inconsciente. Fazemos isso para deixarmos de ser tão terrivelmente solitários em nossa solidão, se o outro sente em suas vísceras a mesma dor que sentimos, já não somos tão solitários assim.

A cem passos de um sonho


Estamos todos a alguns passos de um sonho.
Para realizar um sonho, o primeiro passo é ter um sonho, parece óbvio, mas pasmem! Muita gente não tem um sonho…
O segundo passo é acreditar, terceiro confiar em si, quarto ter esperança, então seremos capazes de dar os vários passos em direção à dedicação, a batalha, enfim, a transpiração para realizar o sonho. Neste ponto adquirimos alguma experiencia, então é hora de aprendermos desta experiencia. O aprendizado pode mudar a direção de nossos passos, torna-los mais leves, ou densos, talvez um pouco mais para direita ou a esquerda, pra cima ou para baixo, e até para onde nem imaginávamos.

Muitas vezes a realização dos nossos sonhos está exatamente onde acreditávamos ser o nosso pesadelo, assim como no filme, ou bem na frente do nosso nariz, e até mesmo dentro de nós! Como fazer para encontra-lo? Se abrir para as possibilidades.
O filme trás uma importantíssima lição de vida: o nosso sonho pode estar ao caminharmos justamente em direção de quem por desventura desenvolvemos algum tipo de preconceito, de quem imaginávamos ser contra nós. O filme nos inspira a sair da “casinha” ou do quadrado fechado e hermético onde nos empoleiramos e lá ficamos rígidos e engessados. O filme fala da importância em unir forças e compreender que a outra pessoa sempre poderá nos enriquecer psíquica e emocionalmente.
Linda a fotografia, linda a mensagem. Recomendo!

Léa Michaan,
12/10/2014

Um Amor em Paris

Os anos que se convive junto à alguém transforma-se em qualidade de amor.
Este tempo merece respeito e tem um peso e um valor que pode ser mais importante e relevante que a paixão desvairada. E é bom que assim seja porque o casal cria filhos, no caso deste filme eles também criam gado, criam uma história de vida e cumplicidade que tem a força de mantê-los unidos independentemente dos deslizes e das tormentas do fogo das paixões. O tempo transforma a relação afetiva em algo que é mais forte, mais intenso e mais real, por isso tem sustância.

Três cenas merecem atenção especial: 1- as esculturas do museu, feitas com dedicação, trabalho árduo e afeto. Estas esculturas representam a extração do humano eternizadas a partir da rigidez fria do mármore; 2- A pintura da pastora de gado; provavelmente, ele desejou guardá-la para si.  A pastora lembrou-lhe sua esposa fugaz, porém na pintura ela foi eternizada pelas mãos do artista.; 3- A transferencia dos proprios sentimentos para o boi que sofria com medo de perder o “amor de sua vida”. Eles falavam de si proprios através do boi, transferindo ao boi seus proprios anseios.
Por fim, o filme transmite a ideia de que nem tudo precisa ser dito em palavras, pois, nossos gestos podem revelar maiores verdades do que os dizeres. No filme, ele não diz que sabe o que aconteceu em Paris e ela não diz que sabe que ele sabe, mas ambos permanecem juntos buscando sarar as feridas, renovando a pele machucada e marcada por meio da lama que simboliza o engodo, o sujo e lamacento dia-dia de um casal que convive junto há muitos anos e do mar de lágrimas que fica denso e por isso mesmo sustenta, uni e cura.

Frozen – A Qualidade Emocional Congelante


Todos nós temos uma Anna e uma Elsa dentro de nós. Duas emoções irmãs que se revezam e às vezes se sobrepõem. Cada qual representa um estado psíquico pelo qual somos tomados e então congelados ou esquentados em nosso mundo interno podendo transbordar para fora de nós e atingir as pessoas e os objetos que nos rodeiam, tanto faz se é o estado mental é aquele que congela ou aquece, nosso entorno reflete nossa condição psiquica.
Do mesmo modo que ocorre com Elza, nossos intensos poderes, principalmente o congelante, também escapam de nosso controle e têm o poder de congelar e até matar objetos e pessoas do mundo que habitamos. Quando digo a palavra matar me refiro a matar no sentido de exterminar ou destruir uma relação que era quente e por meio de nossas “mãos” que representam nossos gestos congelamos e até petrificamos o outro.
Olaf, o divertido boneco de neve, representa as ações atrapalhadas que realizamos quando vivemos o conflito no qual somos tomados pela pulsão de congelar, no entanto, desejamos “desejar” esquentar.
Aquele que compreende o resultado do gesto congelante como uma tentativa desajeitada de fazer o bem torna o gesto passível de transformações ao longo do percurso da relação com o outro.
Afinal, todos nós ofertamos aos objetos do mundo facetas de nossa condição.
Se a condição é congelante ou aquecedora assim será a face dos elementos que compõem o nosso mundo.

O pão da felicidade – Assistir ao filme já é comer um pedacinho!

O pão da felicidade

Assim como todo o filme ou livro, este filme nos permite dar um salto para o poético. E que salto!
Ao assistir ao filme saltamos da nossa vida cotidiana da cidade urbana repleta de tarefas e somos transportados a deslumbrantes cenários que retiram de nossa atmosfera a poluição de maus sentimentos e penetram bons.
Por incrível que pareça no simples ato de assistir ao filme já somos contemplados por um novo estado de humor porque desfilam diante de nossas retinas imagens que alegram a nossa alma. A fotografia do filme é repleta de natureza onde foi apreendida a essência da beleza e simplicidade na qual somos banhados.
Explico-me melhor, nas imagens das crianças o cinegrafista realizou a dedicada façanha em captar a inocência e a candura infantil e vertê-la em nós; há um lindo carneirinho branco e tão doce que só falta sorrir dando vida e contrastando com o convidativo gramado amplo e os alimentos preparados com afeto emanam seu aroma enchendo a nossa boca de água, não de gula, porém, desejo visceral de compartilhar o alimento que esse filme oferece.
A história parece sonho, no entanto, é tão verdadeira que não há como não nos identificarmos, afinal, quem de nós, mulheres não sonhou em encontrar o seu “mani” – o príncipe encantado. E qual de nós não passa a vida ao lado de seu mani e não o reconhece? E os homens podem facilmente se identificar com o protagonista, afinal, é comum ter o desejo em mudar, ou fazer diferença no rumo do trem da história.
O pão da felicidade trás um segredo em seu bojo: a felicidade está em compartilhar o pão, ou seja; partilhar com as pessoas o bom da vida, alimentando-as e permitir que sejamos por elas alimentados. O bom é isto que fazemos com nossas mãos dedicadas. Nada mais.

Léa Michaan,
28/05/2014

A Grande Beleza – Uma reflexão para a nossa vida

A Grande Beleza

Vale a pena atravessar o filme inteiro que não é nada fácil, uma vez que a arte cinematográfica e a mensagem a ser transmitida ocupam a trama que não é feita de uma sequencia lógica de fatos, como acontece na maioria dos filmes que têm a força de prender o publico.
Este filme parece desconexo. É feito de recortes de situações alegres, tristes, maníacas, depressivas, delirantes, entre outras, mas todas estas retratam a vida humana em seu cotidiano na sua forma desconexa de ser e na sua beleza.
Um escritor que está em busca da grande beleza para escrever, é análogo a nós que buscamos a grande beleza para viver, para realizar, e só no final ele se dá conta de que a grande beleza é isto mesmo – o nosso cotidiano, sob o qual escondem-se as nuances mais belas se desenvolvermos olhos para enxergar.
Uma cena que vale a pena enfatizar é a da menina que lança as tintas com raiva, ódio, revolta, tristeza e horror na tela gigante, chorando, sujando-se, urrando e depois surge um belo quadro – a grande beleza. Esta cena simboliza a nossa vida que para extrairmos desta a grande beleza, é necessário, sentir, viver, sofrer, permitir que as emoções penetrem em nossas entranhas e então, somente então, a nossa vida se transforma na grande beleza.
No final através da velha freira, compreendemos que nossas raízes nos dão asas para fazermos, vivermos e sermos tudo o que podemos ser.
As palavras finais do filme serão aqui citadas para aqueles que assistiram ao filme e desejam apreender o arremate das cenas que desfilaram frente aos nossos olhos as quais não encontramos as palavras para significar, pensar e compreender para nos enriquecermos delas:
“É sempre assim que termina, com a morte. Antes, no entanto teve a vida escondida embaixo do blá, blá, blá…
É tudo sedimentado por baixo das conversas e do barulho.
O silencio e o sentimento. A emoção e o medo.
Os frágeis e inconstantes vislumbres de beleza. Depois a desolação e a humanidade miserável. Tudo debaixo do constrangimento de estar no mundo. Blá, blá, blá.
Mais além, está o mais além, não penso no que está mais além.
Portanto que comece este romance, no fundo é só um truque. Sim, é só um truque.”

A partida

No início o filme apresenta a trajetória de um violoncelista que perde a esperança no seu projeto de vida, que é tocar numa orquestra. Ele olha para o caríssimo violoncelo e compreende que este instrumento precisa partir e após a venda do violoncelo fica aliviado, como se a partir de agora ele estará livre para encontrar sua nova e verdadeira vocação.
Interessante notar que o protagonista lida com a morte de seu sonho de tocar numa orquestra, e o acaso faz com que ele se torne profissional em preparar o corpo dos mortos para a partida, sua função é lavar, arrumar, pentear, vestir e maquiar o corpo das pessoas mortas para o último encontro deste com seus familiares, para a despedida e para o que será a última relação corporal do morto com os seus.
Lidando com a despedida dos mortos, o protagonista acaba encontrando sentido para a própria vida, através da compreensão do que é estar morto, ele compreende o que significa estar vivo e então, desfruta da possibilidade das experiências da vida com maior intensidade. Ele desperta para o fato de seu corpo estar dotado de vida e consciência e por isso saboreia mais e melhor as pequenas vivencias cotidianas, como comer, tocar violoncelo, se comunicar com as pessoas ou contemplar a natureza.
Neste filme, vemos a impossibilidade de pai e filho se reencontrarem em vida, e apenas na morte do pai, o filho recebe o comunicado que este o amava. O filho, por sua vez, expressa seu amor pelo pai através da preparação do corpo do pai para a despedida.
Este é um belíssimo filme que nos ajuda a compreender a morte como partida e nos mostra que o corpo do outro, mesmo não dotado de alma merece ser tratado com respeito e cuidado.
Isto nos faz pensar em quanto respeito merece o corpo dotado de alma e mente consciente, tanto o corpo do outro, quanto o nosso. Para além do corpo, o ser que nele habita, seja o nosso, ou do outro.
Este é um dos raros filmes que lida com a morte de uma maneira singela e verdadeira. É uma película que nos faz refletir sobre o que é estar vivo través da morte.
Recomendo!

A Música e o silêncio

Este filme apresenta a luta dos pais surdos para driblar a deficiência.
Impossível não se identificar com este filme. Todos nós temos nossas deficiências, mesmo que elas não sejam físicas como no caso do filme, todos nós somos falíveis em algum aspecto e lutamos para nos defender desta falha.
A filha do casal foi criada no silencio e agora se dedica ao som da música, é isto que preenche a sua vida. Parece evidente que o que ela escolhe para a auto realização é justamente o que lhe faltou na fase de sua constituição.
O filme também fala sobre rixas entre irmãos –
O pai de Lara não escuta enquanto sua irmã não consegue ter filhos, mas ela toca clarinete e instiga a sobrinha a tocar o instrumento, indiretamente, ela convida a filha do irmão para ser sua “filha musical”. Exerce a função que os pais da menina não podem exercer. O pai de Lara, a principio, tem aversão a ideia de sua filha tocar música, porque isto o remete ao sofrimento vivido na infância, em que sua irmã era valorizada por tocar o instrumento na medida em que ele se sentia desvalorizado e incapaz diante da aptidão de sua irmã.
Este filme toca em nossas inaptidões, dificuldades, e defesas de uma maneira sutil e inteligente.
Uma das mensagens do filme diz que podemos transformar nossas inaptidões em silencio, ou em música. No final do filme o pai transformou sua deficiencia em música captando sua vibração para compreender e se reaproximar da filha.

Viver com prazer – A Festa de Babette

Morrer em vida é seguir a mesma estrada delineada dia após dia. Morrer em vida é dar hoje os mesmos passos de ontem e de antes de ontem, e de antes de antes de ontem sem questionar, sem nem ao menos pensar se é isto que quero, que gosto, que desejo realizar comigo, com meu limitado e precioso tempo de vida, com minha vida com a minha existência! Esta vida é uma vida que não vale a pena ser vivida. É a vida de quem já morreu há muito tempo e apenas inspira e expira o ar, tem um coração que bate, não de emoção, mas pela lei biológica, e sabe pronunciar palavras, mas raramente diz alguma coisa.
O filme “A festa de Babette”, mostra uma comunidade antiga, que preserva a tradição de uma maneira estática, sem vivacidade, sem flexibilidade, mas, rígida, onde o prazer é considerado pecado.
A comunidade representa muitos de nós, que vivemos do jeito que nos impuseram desde o berço, e por isso perdemos o senso inclusive de questionamentos.
A lei é rigorosa onde é preciso viver rigidamente, monotonamente dentro de um espaço estreito sem o direito de dar um passo fora dos trilhos que nos foram impostos. Para muitos viver a vida com prazer de forma espontânea e desfrutar a seiva saborosa de cada momento da vida é pecaminoso. Que tristeza viver (morrer) assim!
Babette realiza um delicioso jantar para esta comunidade. Ela oferece o melhor. E ao desfrutarem o melhor as pessoas se tornam mais leves, felizes, agradáveis assim como é o sabor do delicioso jantar que desfrutam.
No final desta pequena amostra do desfrute saboroso da vida, as pessoas saem outras, antes haviam coisas impossíveis, agora tudo pode ser possível, de algum modo!
Babette gasta todo dinheiro que recebeu neste baquete, mas diz: Um artista nunca fica pobre. E eu complemento: Um endinheirado pode ser pobre, mas um artista possui a riqueza dentro de si!
O filme é delicado, singelo e para quem souber saborear suas riquezas, poderá em alguma medida ter a força de auxiliar o espectador e extrair mais sabor e riquezas da própria vida!

Léa Michaan,
28/07/2013